As lições de Mundell, Nobel de Economia e “pai” intelectual do euro

Ernani Hickmann

Professor da Escola de Pós-Graduação em Economia (EPGE) Fundação Getúlio Vargas (FGV), Coordenador dos Cursos de Graduação Latus Sensu da FGV

Alexander Mundell

Qual o legado para a economia contemporânea, deixado pelo economista canadense Robert Alexander Mundell, Nobel de Economia em 1999 e considerado o “pai” intelectual do euro, falecido na última semana, na Itália?

Mundell nasceu em 24 de outubro de 1932, em Kingston/Ontário, no Canadá. Graduou-se pelo Departamento de Economia da Universidade Britânica de Colúmbia (UBC), em Vancouver.

Obteve seu mestrado na Universidade de Washington, em Seattle, e frequentou o Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), onde obteve seu doutorado em economia.

Suas principais contribuições foram, por um lado, a chamada economia da oferta, corrente econômica surgida na década de 70, por influência de Mundell e de Arthur Laffer, que analisava o efeito de diminuições da carga fiscal sem que houvesse necessariamente cortes na despesa pública.

Em segundo lugar, a contribuição dele para a macroeconomia internacional, ao colocar seus modelos macroeconômicos para o desenvolvimento de economias fechadas, provocando uma mudança de comportamento de ideias nos demais países.

E, depois, a própria criação, junto com Marcus Fleming, do chamado Modelo Mundell-Fleming, de economia aberta, e a criação dos desenvolvimentos das áreas ótimas de moedas.

Uma análise sobre que condições e características devem ter determinados países, estados ou regiões, para que uma moeda única entre eles ofereça o que se espera de uma moeda.

Ronald Reagan

Nos anos 70, ele teve uma participação muito direta junto ao governo Reagan. Como foi essa ação?
A maior contribuição de Mundell aconteceu, a meu ver, na época do Presidente Ronald Reagan, nos EUA. Eu credito a ele boa parte do desenvolvimento da tecnologia a partir da década de 70.

Ele, com suas recomendações ao Presidente Ronald Reagan, criou as condições para que houvesse toda a grande revolução da informática, de Internet, enfim, de tudo o que se seguiu em termos de modernização tecnológica do mundo.

Que mudanças foram propostas?

Até a época do Presidente Ronald Reagan, as empresas e grandes corporações dos EUA, eram taxadas pelo imposto de renda da pessoa jurídica, com uma aliquota marginal de mais de 70%.

Isso quer dizer que os lucros superiores a um patamar relativamente baixo, o lucro adicional era tributado em 70 a 75%, o que levava a ausência total de investimentos. Se você vai fazer um investimento que vai ter que entregar 75% dos seus resultados para o governo, você não vai investir.

E foi a recomendação dele, juntamente com Laffer, ao então Presidente Ronald Reagan, sobre a necessidade de reduzir esta alíquota para uma faixa de tributação considerada normal, que era de 25%. Então, os lucros das empresas, que eram tributados em 75% baixaram para 25%, gerando um grande fluxo de investimentos privados no desenvolvimento de novas tecnologias.

E foi por isso que as grandes empresas surgiram, investiram e criaram a revolução da informática, que mudou o mundo. Por isso, considero a principal contribuição dele à economia. Com esse ativo aos investimentos, e isso está ligado à economia da oferta, a qual Mundell era talvez o principal teórico.

O senhor, como amigo dele, discutia seguidamente esses pensamentos e contribuições?

Discuti longamente com Mundell essas contribuições, já que ele foi o meu orientador no Pós-Doutorado na Universidade de Columbia, lá pelos anos de 1991, 92, 93.

Depois disso, o acompanhei em organizações de eventos internacionais. Participamos juntos do Reinventing Brettonwoods Commitee, que reunia algumas vezes por ano, em diversos países, um grupo de economistas do mundo inteiro, para discutir políticas cambiais e uma nova arquitetura financeira internacional para substituir a que tinha sido criada após a segunda grande guerra.

O grupo se chamava Reinventando Brentwoods. Viajava pelo mundo todo, todas as semanas um país, ministrando aulas, dando conferências, assessorado governos e organizações privadas. Estava com ele no dia de seu aniversário, em 2014, e nos encontraríamos novamente no dia seguinte para almoçar com seus filhos.

Só que, à noite, sofreu um grave AVC, fato que acabou tirando-lhe a capacidade de se locomover e de se comunicar, afastando-o definitivamente das reuniões e conferências, até o momento em que veio a falecer, na semana passada, aos 88 anos de idade.

Qual a relação do Modelo Mundell-Fleming com o keynesianismo?

Basicamente o modelo keynesiano, assim como as popularizações do mesmo, que a maioria das pessoas conhecem como sendo o modelo IS/LM, é um modelo de uma macroeconomia fechada, onde foi introduzido o setor externo. Mundell internacionalizou o modelo keynesiano, que tinha sido popularizado por John Hicks, passando a incluir as variáveis externas, permitindo formular políticas monetárias e fiscais adequadas para um mundo globalizado.

Como chegou ao Prêmio Nobel de Economia?
Mundell recebeu o Prêmio Nobel de Economia em 1999, por suas contribuições na área das políticas monetária, fiscal e cambial, e por ter criado a teoria das áreas monetárias ótimas, que serviu de base para a criação de moedas de âmbito multinacional, como o euro.

O professor Mundell esteve em Porto Alegre no ano 2000. O que o trouxe aqui?

Eu e ele organizamos, em abril e maio de 2000, pela Escola de Pós-Graduação em Economia da Fundação Getúlio Vargas, uma grande conferência internacional, “Mercosul – O Desafio de uma União Monetária”. Foi realizada no Hotel Plaza São Rafael, onde se discutiu as possibilidades da criação de uma moeda única para os países do Mercosul.

Além da capital gaúcha, a conferência teve extensões no Rio de Janeiro e em São Paulo, e contou com a presença do então Presidente Fernando Henrique Cardoso e de diversos economistas do mundo todo, inclusive o então todo poderoso ministro da Economia Argentino, Domingos Cavalo. Foi o evento comemorativo ao lançamento do primeiro número do Jornal Valor Econômico.

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